Entrevista - Ângela Guimarães e Simone de Pádua - produção do figurino para espetáculo Nelson Sem Pecado.

Entrevista – Ângela Guimarães e Simone de Pádua – produção do figurino para espetáculo Nelson Sem Pecado.


Por Cibele Machado

Para quem não sabe eu também sou atriz, e essa semana estréia meu espetáculo Nelson Sem Pecado, com direção de Elvécio Guimarães e Guilherme Ruggio. A peça aborda uma visão sobre um Nelson Rodrigues real, sem rótulos ou preconceitos, um jornalista que soube transformar fatos cotidianos e detalhes de relações humanas em consagrada literatura. Um homem que renovou o cenário teatral brasileiro trazendo para os palcos o retrato da sociedade brasileira.

O espetáculo se passa nos anos 50, e por isso nosso figurino foi cuidosamente confeccionado para ambientar o período. Ficou tão lindo que ano passado foi indicado no prêmio 1° Copasa Prêmio Sinparc de Artes Cênicas, legal né! Então resolvi entrevistas nossas figurinistas Ângela Guimarães e Simone de Pádua, para entender como foi o processo de criação.


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O que é a moda para você?

Simone de Pádua – Moda é  um costume mais predominante em um determinado grupo em um determinado momento. Embora a palavra moda remeta normalmente a “formas de se vestir”, é importante ressaltar que ela se refere a uma grande diversidade de costumes: jeito e falar, de agir, de cortar os cabelos, de mobiliar a casa…

Ângela Guimarães – Moda para mim tem a ver com me sentir bem. Em qualquer dos contextos possíveis, desde as roupas que visto até a decoração de onde moro, por exemplo. Eu não me prendo a modismos, visto o que gosto e minha casa é como eu quero, mas gosto de estar atenta ás propostas dos profissionais da área, porque são eles que nos trazem o novo, que podemos ou não incorporar ao nosso cotidiano.

Como foi receber a ideia de confeccionar o figurino para um espetáculo teatral?

Simone de Pádua – Já trabalhei anteriormente com a execução de figurinos da Denise Paixão para três peças: Manuel  Audaz (musical dirigido pelo Fernando Brant), Boa Noite,mãe (dirigido pelo Marcos Voguel) e Ratos e Homens (dirigido pelo Elvécio Guimarães). Mas tudo isso aconteceu a mais de uma década. O convite do Elvécio para participar não só da confecção, mas também da criação, do figurino de Nelson sem pecado foi recebido com muita alegria, pela honra concedida e também pela oportunidade de viver mais uma vez o desafio da criação.

Ângela Guimarães – Foi ótimo, mas só aceitei porque a Simone estava junto, ela é a profissional e já tinha experiência em fazer figurinos em outras peças. Como somos muito amigas, topei o desafio junto com ela, até porque já estava acompanhando desde o princípio os ensaios  e senti que tinha alguma contribuição a dar em relação ao clima desejado pelo Elvécio para os personagens. Aliás,  o direcionamento para o figurino foi do Elvécio. Para cada personagem ele definiu, por exemplo, as cores mais adequadas, se era para ser um traje mais alegre ou mais sisudo, etc. O Guilherme ( ele é o produtor do espetáculo, e interpreta o Nelson Rodrigues) também participou muito, foi ele que escolheu e comprou todos os trajes masculinos com base nas propostas feitas.

E a pesquisa? Como foi o processo de pesquisa?

Simone de Pádua –  A pesquisa para execução do figurino foi feita em revistas e na internet. Fotos e lembranças remotas do modo como nossos pais se vestiam nos anos 50 também ajudaram na criação. Cabe ressaltar a contribuição inestimável do Guilherme, que providenciou todo o figurino masculino a partir de algumas diretrizes estabelecidas. Desde o princípio, sabíamos que usaríamos as saias em godê “chapéu de sol”, também chamado “godê duplo”, para dar volume ao figurino feninino. Esse artifício procurou eliminar custos com tecidos sofisticados e, ao mesmo tempo, construir um visual “clean”, equilibrado a partir das cores. A contribuição do Elvécio foi fundamental: cores e detalhes foram exaustivamente negociadas com ele e, é claro, aprovadas por ele.

Ângela Guimarães – Foi o processo mais detalhado. Consultamos, eu e a Simone, álbuns de família, filmes da época, figurinos… A internet foi o meio mais utilizado, claro, mas também conversamos com pessoas mais velhas para ver como elas se vestiam e se sentiam na época.

Teve algum fato que impossibilitou alguma coisa, ou alguma dificuldade nesse processo?

Simone de Pádua – Fora a dificuldade de se encontrar no mercado calçados de época, não enfrentamos nenhum imprevisto. A pouca verba para execução do figurino já era fato sabido desde o início da criação , de forma que isso constituiu um critério para a criação e não uma dificuldade ou empecilho.

Ângela Guimarães – Nenhum imprevisto. Já sabíamos que tínhamos pouco recurso financeiro, mas isto foi mais um incentivo. Todos cooperaram e, no final, todo o elenco ficou muito bem com o figurino. Fiquei orgulhosa com o resultado.

Como você vê a importância do figurino para um espetáculo,  tv e cinema?

Simone de Pádua – O figurino é um componente fundamental em qualquer espetáculo de teatro, cinema ou TV. Além de contribuir para a estética do espetáculo, ele cria contexto, situando histórias no tempo e no espaço e revelando muito dos personagens.

Ângela Guimarães – É muito importante. Um figurino bacana pode, sem dúvida “levantar” uma produção. Já um figurino ruim,  não digo que derrube, mas atrapalha muito. É um item que tem que ser muito bem cuidado.

Como foi trabalhar com Elvécio?

Simone de Pádua –  Amo esse competente, rabugento e implicante! Brincadeiras à parte, foi bem mais fácil trabalhar com ele em figurinos do que ser dirigida por ele… No Nelson sem pecado, fizemos um trabalho a 8 mãos (eu, Ângela e Guilherme e Elvécio), harmonioso, consensuado e sem qualquer conflito. Eu diria que o figurino não é meu e da Ângela, mas dos quatro.

Ângela Guimarães – Bom, fácil não foi, você conhece o nível de exigência do Elvécio, mas é um prazer trabalhar com um profissional com a competência dele. Ele sabe o que faz e faz bem. Além disso, o lado professor dele está sempre lá. E a oportunidade de aprender é muito importante em qualquer época e em qualquer área que a gente esteja atuando.

A moda faz parte da sua vida?

Simone de Pádua – A criação,especialmente na vestimenta, faz parte da minha vida desde que me entendo por gente. As roupinhas de boneca, o cachecol de tricô, o pulover de crochet, o bordado em ponto cruz na pala de um vestido… Aos quinze anos eu costurava para mim e para as amigas mais próximas. Durante algum tempo, costurei sob encomenda, confeccionando até blaser masculino e vestido de noiva. Mas os compromissos com o magistério me deixaram longe da máquina de costura nos últimos 20 anos. Hay que sobrevivir, pero sin perder la ternura jamás! Agradeço carinhosamente ao Elvécio e a todo o elenco de Nelson sem pecado a oportunidade de viver, em grande estilo, o prazer de criar.

Ângela Guimarães – Digamos assim: o tema me interessa. Eu sou uma curiosa e gosto de me manter informada.

Fotos do espetáculo: 

Fotos  reprodução de: Leonardo Noronha e Rafael Vilela e Thiago Di Nazaré

O espetáculo Nelson Sem Pecado está em cartaz do dia 05 de fevereiro a 08 de Março. 

De quinta a sábado ás 21hs  e domingo as 19hs.

Espero vocês lá!!

bjkas